Entrega e submissão
Fazia mesmo muito tempo que eu não deixava ela dar as caras. Aquela que gosta do controle. Acho que é a minha face mais difícil de lidar, por isso acabo sempre a evitando. Impaciente, rígida, dominadora. Qualquer que seja a definição, Astarte certamente se tornou meu nome por causa dela. A deusa da guerra, exigente com seus súditos, irredutível com seus opositores. E na cama... na cama, o foco dela é sempre o outro.
Se engana quem acha que dominação é sobre fazer o que você quiser com outra pessoa. A verdade é que não há servo maior do que um bom dominador. Quando se fala de prazer, o papel de quem está no controle não é forçar que nada aconteça, mas como num complexo jogo de xadrez ir galgando território pouco a pouco, vencendo a partida sem que o outro perceba. Permitir que a derrota seja, simplesmente, um rito de entrega ao próprio prazer. Quase ninguém percebe o quanto deseja falhar, desistir, se desfazer em pedaços diante de algo maior.
E esse algo maior, por vezes, sou eu. Que loucura, né?
Não sou muito ligada na provocação da dor, apesar de pessoalmente gostar dela. Acho que acabo me encaixando na categoria de GentleDom - a dominação gentil. Evito brincadeiras de impacto, como tapas ou uso de utensílios com esse propósito. Gosto da restrição dos sentidos, de vedar os olhos, de restringir movimentos, e de criar situações onde meus parceiros se sintam confortáveis para explorar sensações mais do que pensamentos.
Não sou muito verbal durante o sexo. Os sons próprios da coisa me excitam - a respiração ofegante, o barulho dos corpos se chocando, os gemidos baixos que escapam sem perceber. Gosto de ver pouco a pouco a outra pessoa não perdendo, mas cedendo o controle. Qualquer tipo de resistência me desinteressa.
Não há nada mais agradável que olhar nos olhos de alguém e ver lá dentro um pequeno animal em busca de aprovação. Sorrio só de pensar.
Com isso em mente, vou tentar trazer para cá uma narrativa mais detalhada da coisa, um experimento de imersão, que tal?
Depois de beijos acalorados, nos encontramos na cama, com os corpos emaranhados e a respiração ofegante. Uma rápida troca de olhares é o sinal que preciso para continuar. Beijando lentamente seu pescoço, massageio com os dentes uma pequena porção de carne. O suficiente para despertar algo, um pouco de medo, mas não para machucar. Respiro fundo, sentindo o cheiro da pele salpicada de suor e saliva, enquanto ouço outro suspiro em resposta. As mãos vão caminhando pelo corpo, removendo barreiras de tecido, tateando pelos, desbravando a geografia desse corpo diante de mim. Como em um ritual de adoração, trilho um caminho de beijos, calmamente, apreciando cada contorno. O corpo, cheio de reentrâncias e protuberâncias, é adornado por afeto em reverência. Vez ou outra, uma pequena mordiscada é um lembrete da materialidade, do ciclo da vida. Nascimento e morte, entrega e submissão. Tudo isso tem seu propósito. Primeiro, despertar a sensibilidade do corpo, acordar cada pedaço de si para o que está prestes a acontecer. Depois, relaxar a mente. Criar um repertório de confiança e deixar que os pensamentos se desliguem para que as sensações físicas se tornem soberanas. Deixar claro o que deveria ser óbvio: nada que não seja bem vindo irá acontecer, mas o desconforto por vezes é parte dessa brincadeira.
A intimidade de explorar com atenção o corpo de alguém me excita como quase mais nada consegue. Quanta atenção já foi dada para a pele que dobra atrás dos seus joelhos? Um tecido tão sensível merece ser beijado, claro. Sigo peregrinando pelo corpo inteiro, sem nenhum sinal de pressa. Estamos, afinal, em um estado suspenso da realidade. Dizemos que vivemos cenas no BDSM, como um teatro montado para um espetáculo intimista. Aqui, a ficção é a realidade. E não há nada mais real do que o corpo em estado de entrega.
(continua)
Para dizer que está gostando de acompanhar essa saga, para sugerir um tema ou para se candidatar para uma cena BDSM e me ajudar a ficar mais inspirada, me escreva no email astarte@apm-apm.com ou deixe um comentário.




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